A dor do parto de um roteiro de cinema

Escrever um roteiro é sempre muito complicado e doloroso. Você tem (na melhor das hipóteses) as idéias formadas na sua cabeça,  qual o clima do filme,  quais as referências, as entonações das falas dos personagens, as sutilezas do tipo de gente que eles são etc. Daí você submente tudo ao papel. Tenta colocar  isso descrito de modo que seja tão conciso que não fique pedante e tão detalhado que não dê margem pra duplas interpretações. E, bem… não adianta. Cada pessoa que lê vê aquilo baseia-se nas referências que ela mesma tem de filmes assistidos e do tipo de pessoas com quem se relaciona. Se nisso consiste a dificuldade, também consiste o maior charme de tudo isso.
Cada pessoa que virá colaborar com os tratamentos do roteiro e, depois, com a realização do filme, continua vendo, interpretando e direcionando as ações pro caminho da interpretação que ela mesma deu ao que está descrito ali.
No fim, o filme não será como estava em sua cabeça, nem como estava no roteiro. Será um híbrido da interpretação que cada membro da equipe teve sobre seu roteiro.
Já li depoimentos e entrevistas de roteirista que tinham se irritado e magoado porque determinado diretor teria feito um filme diferente do que estava no roteiro. Isso é uma besteira imensa! O filme não tem de ser como está no roteiro. Tudo conspira pra que não seja. Às vezes o diretor tem uma visão mais abrangente do que está descrito. Às vezes tem uma posição pessimista com relação a uma determinada situação que, pro roteirista soava como piada ou ironia… e muitas vezes o atores gostam de entregar coisas de si no personagem. Mudar falas pra que elas se adequem de forma mais orgânica ao andamento da cena é normal e natural. Essas pequenas mudanças, às vezes podem mudar totalmente o direcionamento da cena. É tudo um jogo de sutilezas. Se um pequeno detalhe mudou aqui, o clima e o significado de tudo acabou mudando.
Lembro de ter assistido ao making off e àlgumas cenas excluídas do filme “Gênio Indomável” que são exemplos ótimo disso que quero dizer.
O personagem principal tinha uma namoradinha, feiosa mas charmosa que tinha uma personalidade doce porém forte. Ela era apaixonante de verdade e você terminava de ver o filme gamadinho nela! Porém, um único diálogo, numa ceninha boba de 30 segundos que foi deletada, mudaria totalmente essa concepção de quem era de fato a namoradinha do personagem principal. Se aquela cena de 30 segundos não tivesse sido deletada, você não terminaria o filme apaixonado pela guria. E isso muda tudo!
Pra piorar, essa cena só foi excluída na edição! Ou seja,amigo, na edição seu roteiro pode e vai sofrer mais alterações. Antes dele virar filme, muita água passa debaixo da ponte. Não adianta ficar de mimimi… não adianta ter paternalismo pelo texto. Pra que ele vire um filme, é imprescindível que deixe de ser seu.

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